7 de janeiro de 2010

Cabra Cabriola e o Bêbado




Alberico tinha todos os atributos para ocupar o cargo de bêbado oficial do município de Piriquita da Serra; bebia, metodicamente, todas as manhãs, promovendo um festival etílico que  alcançava o luar, desquitando a boca da garrafa apenas para o consumo de duas ou três empadas de palmito. Em verdade, tinha mania de, no cume da bebedeira, meter-se na pele dos poetas e declamar versos de Camões – o que fazia rir até aos mais sisudos. Dormia às portas da capela de Nossa Senhora dos Remédios, com bênção do pároco e aprovação das beatas. Verdade seja dita, a população de Piriquita da Serra nutria pelo bebum certa simpatia tão comum às relações socialmente desiguais: mais por curiosidade exótica do que por identificação humana. Só havia uma imposição quanto à conduta do sem teto: era proibido urinar nas ruas quando o bispo estava em Piriquita da Serra.

Ocorreu que, numa noite de véspera de Reis, Alberico, exasperado, arranhado em carne viva, invadiu a delegacia com uma demanda: queria, em suas palavras, “notificar uma ocorrência boletinesca”.
-       O que aconteceu, Alberico? – perguntou o sonolento policial, sem estranhar o estado do querelante.
-       Já que o Bispo está na cidade desde tresanteontem, eu procurava um lugar pra mijar, seu guarda. Aí, fui atacado pela Cabra Cabriola.
Sem contradizer o depoente, e querendo fazer troça às custas do bêbado, o plantonista da delegacia disse que essa Cabra Cabriola devia estar com muita fome, já que, como se sabe, esse tipo de monstro só come criança desobediente; e deu um conselho:
-       Se essa coisa ruim aparecer de novo, Alberico, você diz que já é homem feito; diz que a qualidade de carne de adulto não faz parte do cardápio da Cabra Cabriola. Entendeu?
-       Entendi. Será que posso usá a casinha? Tô muito apertado!
-       Isso aqui não é hotel, Alberico. Agora vai que minha paciência tem limite.
E saiu o bebum, com passos apertados, sentindo mais a urgência da urina do que os ferimentos. Duas horas depois, voltou à delegacia,  banhado em sangue.
-       Mas o que aconteceu agora, homem de Deus?
-       Cabra Cabriola.
-       Você não explicou que era adulto?
-       Expliquei, mas como tava com uma rodela de urina na calça, a bicha não querditô.

* a ilustração acima foi feita para a matéria da Revista Carta Fundamental.

3 comentários:

sueli aduan disse...

kkkkk!!!Adorei.

abraços

Helena disse...

hahaha

parabéns pelo texto.

beijos da HB.

Toni D'Agostinho disse...

Olás!

Sulei: Obrigado e cuidado com a Cabra Cabriola!
Helena: HB é tipo de lápis!!!!